Finalizando os trabalhos de 2015 com a Circulação de Abnegação I, Leitura Aberta de Abnegação III, e uma mostra: Abertura dos Laboratórios do Ator.

CIRCULAÇÃO ABNEGAÇÃO I

(Piracicaba, Bauru, Ribeirão Preto, Santo André e Santos)

LEITURA ABERTA DE ABNEGAÇÃO III

MOSTRA: ABERTURA DOS LABORATÓRIOS DO ATOR

A MOSTRA PROCESSO DE PESQUISA TRILOGIA ABNEGAÇÃO é uma mostra parcial, em que o Tablado de Arruar abre as suas atividades financiadas pela Lei de Fomento para o público. A mostra envolve duas principais vertentes, que ocorrem paralelamente no projeto:

1 – Laboratórios do ator Os atores que compõem o núcleo artístico realizam pesquisas paralelas e complementares, que se configuram como desdobramentos da pesquisa central do projeto. A atriz LÍgia Oliveira mostrou o seu trabalho a partir da aplicação da técnica do BMC, orientado pela especialista em BMC Tarina Quelho à voz, que resultou em um exercício com o texto de uma peça antiga do grupo, o Quem vem lá.

Vitor Vieira desenvolve um trabalho no limiar entre o teatro, a dança e a fotografia, que ficará em exposição na sede durante toda a mostra, em parceria com a fotógrafa Camila Picolo.

Alexandra Tavares, com a participação do artista plástico Eduardo Climachauska, diretor de arte de diversos trabalhos do grupo, realiza uma performance a partir do embate entre diversos materiais, todos eles relacionados à poética recente do tablado de Arruar, sendo o principal deles, o filme Os Mestres Loucos, do cineasta francês Jean Rouche.

 

 

Trecho da Resposta de Alexandre Dal Farra à crítica de Weligton Andrade

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Medusa versus medusa

Para entrar na peça em si, gostaria de falar sobre as cenas que Welington denominou de fundo. Creio que falando delas poderei apontar algo sobre a peça como um todo. Para mim, nessas cenas, trata-se antes de tudo de investigar uma maneira determinada de lidar com o horror, e com o medo que dele decorre, com a sua força petrificante. Ítalo Calvino em seu Seis propostas para o próximo milênio expõe belamente a forma como a leveza era para ele crucial na lida com o horror, lembrando do mito da medusa, e da maneira como ela é morta: “Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento; e dirige o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta, por uma imagem capturada no espelho”. Penso que, aqui, trata-se justamente do caminho inverso. Pensando o horror (que aqui se refere a determinados fatos reais) como essa espécie de medusa que, quando olhada de frente, petrifica, como seria se experimentássemos justamente encará-la, olhá-la de frente, mas, não por meio do semideus Perseu, e sim por meio de uma outra medusa? O que ocorreria em tal encontro? Tornar-se-iam ambas pedra? Mas como se daria esse processo, e, mais importante, o que ele geraria enquanto ocorresse?

Trecho da resposta de Alexandre Dal Farra à crítica de Weligton Andrade, escrita a convite do mesmo. Leiam o diálogo inteiro aqui: http://revistacult.uol.com.br/home/2015/08/interlocucao-entre-a-cena-e-a-critica/

 

Trecho da Entrevista de Alexandre Dal Farra para Dirceu Alves na Veja

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Por outro lado, o personagem Jorge pode ser apenas uma metáfora para qualquer outro segmento da sociedade, o cara que não topou participar de um modelo e pagou um preço por isso. Perfis como o de Jorge não têm vez ou são eles que podem salvar?

Também acho que ele é uma figura mais geral, com certeza. É isso que, para mim, importa em tornar a peça claramente uma ficção. No entanto, eu acho que Jorge é a figura que não topa participar de um modelo, mas também é aquele que ajudou a criar o tipo de modelo de oposição – afinal, trata-se de um partido de esquerda –, e, de dentro desse modelo, decide retirar-se quando aquilo que ele mesmo criou parece tomar um rumo que condena. Ou seja, podemos pensá-lo como alguém que resiste, mas, por outro lado, Jorge também é um traidor. O que está negando foi ele mesmo que construiu. Além disso, não há outro modelo disponível, ou seja, essa negação dele, que parece heroica, logo se mostra totalmente inócua do ponto de vista da transformação do modelo em si: a única coisa que Jorge consegue com isso tudo é a própria morte. Embora seu incômodo seja importante, seu ato não gera nada e, de um outro ponto de vista, aqueles que ficam estão talvez menos “limpos” do que ele. Mas também têm a oportunidade de fazer mais algo concretamente para que esse modelo venha talvez a se modificar. Penso que essa contradição aparece no epílogo. O caminho do mártir não gera necessariamente nada de positivo. E talvez esse “modelo” seja muito mais forte do que o Jorge imaginava. A luta tem que durar muito mais e é muito mais difícil do que uma simples negação, que não deixa de ser um ato corajoso, mas talvez infantil.

o link: http://vejasp.abril.com.br/blogs/dirceu-alves-jr/2015/05/29/a-dramaturgia-de-alexandre-dal-farra-e-a-realidade-social-e-politica-eu-sou-pessimista-na-arte-e-otimista-na-vida/#post-comentarios

 

Performatividade e política

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Por: Alexandre Dal Farra

O que mais me interessa no teatro de Castorf para mim se refere ao dado político da sua performatividade: o público ali não é tomado como uma espécie de massa disforme e abstrata, destinada a ler o que é colocado no palco. O público, no caso do Castorf, parece ser tomado mais como uma força já em si mesma ativa, um ponto de partida, um vetor ideológico (ou diversos vetores ideológicos), frente aos quais a peça se coloca, enquanto embate, enquanto provocação. É também a forma como penso o público em muitos dos meus trabalhos. Em Abnegação II isso era bastante claro para todos nós. A peça é, antes de tudo, uma negação da ideia do público enquanto leitor, enquanto decodificador de signos. Quem se colocar nesse papel não terá nada para retirar dali. Não existem signos a serem decodificados, lidos, mas sim, forças, conflitos entre posições ideológicas e existenciais – conflitos esses que não recolocados dentro da cena, para serem melhor compreendidos, mas sim, que efetivamente ocorrem, entre a cena e o público, no próprio ato da representação. Esta seria, novamente, a proposta política da performatividade em jogo. O real está ali para ser colocado em tensão e não para ser recriado, narrado ou ressignificado. Daí que o fator algo unidirecional do espetáculo também faz parte da proposta, que a meu ver é o próprio caráter performativo proposto: o vetor que a peça propõe pressupõe um público ideologicamente ativo. Dessa forma, a recepção da peça varia totalmente de acordo com a posição que o público assume frente ao que é exposto, ou seja, de acordo com a sua postura política. Isso equivale a dizer que não se trata, talvez, de uma peça universal (sabe-se lá se isso existe). Ou seja: se ela não te incomoda em nada, ela não deve ser boa para você. Mas provavelmente se você se incomoda muito com a peça ela foi feita para você. Ela gerou muito incômodo também em quem a fez. E não fornece um olhar totalizante que, enquanto totalização, não deixa de ser também atenuante, na medida em que se pretende dando conta dos diversos lados em jogo, ainda que opte por não fechar apenas uma leitura para eles. Ao abdicarmos do todo, focamos em um vetor, que pressupõe outros, vindos do público, para que o movimento provocativo se dê no aqui agora da cena.

SÓ UM POUQUINHO

Foto extraída do espetáculo Abnegação II – Fotógrafa Jennifer Glass

Ontem ouvi no rádio os conselhos da psicóloga Rosely Sayão a uma mãe que tinha encontrado uma mensagem no celular da filha cheia de palavrões, quando a menina era, ela dizia, uma santa em casa. Depois de discorrer sobre a necessidade de que os pais realizem uma mediação frente a tais dispositivos, a psicóloga concluiu: “transgredir pode, mas só um pouquinho”. Para além da piada que envolve o contrassenso da primeira parte do conselho, creio que isso fala muito do modo como se dá o controle na atualidade. Há espaço para a transgressão. E isso já seria o bastante para sabermos que simplesmente não há transgressão alguma. Não basta delimitar justamente o desejo de ir contra os limites, ainda é preciso afirmar que “é só um pouquinho”, para que os pais em jogo não se confundam e não a entendam mal. O enfraquecimento da moral burguesa estrita não levou a um descontrole maior, mas, evidentemente, a uma expansão do controle, inclusive para a esfera da transgressão.
Da mesma forma, creio que nos perseguiu por algum tempo (talvez não muito) um conselho semelhante a esse, quando, na criação de Abnegação II – O começo do fim, decidimos falar do caso Celso Daniel, do PT, e assim por diante. “Criticar o PT pode, mas só um pouquinho”. “Falar de um fato real pode, mas só um pouquinho.” Por isso, pensamos diversas vezes em deixar tudo mais ambíguo, menos direto – em não nomear os reais assuntos em jogo. Felizmente, contrariamente aos conselhos da Rosely Sayão introjetada nas nossas consciências, não seguimos esse caminho contido, e deixamos tudo lá para ser visto. Isso porque, se houver algo de realmente preocupante, a meu ver, no relato da tal mãe, é que a filha seja uma santinha em casa e só fale sacanagem no celular o tempo inteiro. Esse “gap” tão radical talvez indique algo. Talvez, o melhor conselho fosse para a filha, e não para a mãe: que ela experimentasse falar todas aquelas sacanagens que ela fala no whatsapp no meio do jantar com a família, e, no celular, passasse a usar apenas a norma culta. Talvez isso gerasse algum tipo de contato real com as suas questões. Ou, no mínimo, ia servir para mover um pouco as posições em jogo.
 Por Alexandre Dal Farra